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sábado, 11 de julho de 2009

Dor


Eram três da manhã quando olhou para o relógio. A testa estava molhada e sentia um frio umido em seu colchão, havia suado frio novamente. Levantou e foi até a cozinha. Sua cabeça pesava nos ombros, parecia que seu cérebro iria romper a sua caixa craniana e, numa explosão cinematográfica, tingir a sala com seus miolos. As mãos estavam inchadas e o pé se arrastava pelo frio azulejo da cozinha. O bebedor de barro ostentava-se como um troféu ao canto, do lado da pia. O relógio da sala gritava, ou melhor urrava tic tacs alucinantes, sua cabeça doia ainda mais, sentia a garganta seca e os olhos arderem. Finalmente consegue o copo com água, mas está tão pesado e dificil de ser erguido à boca. Em goles inclementes e refrescantes acalmou seu organismo sedento. Sorvia a água e a sentia percorrer seus poros, repondo seu gasto noturno. A cabeça doia menos quando foi para a sala – onde diabos está o controle ? – Baixou a cabeça para procura-lo em baixo do sofá... ah antes não tivesse feito isso... Franziu a testa. Uma dor lacinante perfurou suas temporas, expremendo sua mente. A cabeça estava pesada e seus joelhos dobrados não conseguiam obedecer sua vontade de levantar. A mão direita agarrava-se com força no couro velho e rachado do sofá e os dedos cravavam na espuma exposta. Com muita dificuldade finalmente levantou – droga! Preciso de um analgésico! – Caminhando com os braços erguidos e tateando o caminho como um zumbi dos filmes de Romero, alcançou o banheiro. A dor lascinante obrigava-o a manter os olhos semifechados. Seu rosto enrruga-se com a dor. Na testa, suas linhas de expressão formavam vales e colinas que brilhavam com o suor de seu rosto. Com sua mão tateando, finalmente consegue abrir o espelho, mas devido à violência de seu ato e da falta de organização no armário, duzias de caixas de remédios escorrem pelas prateleiras como a água represada de um rio. – Porra!! Nada dá certo comigo! – Um frasco de comprido se abre com a queda e a única pilula escapa e circula as paredes da pia. – Droga! Este aqui não – Sua mão procura desesperadamente segurar a pedrinha milagrosa, mas devido a sua falta de concentração graças a sua febre, deixa a cair no ralo. – Porra! E agora? – Com as mãos fechadas apoiadas na pia, tal como um lutador de boxe concentrado, tenta desesperadamente achar uma saída no labirinto congestionado de sua mente. O telefone toca. Suas palpebras apertam ainda mais, formando rugas nos cantos dos olhos. O telefone toca. Aperta fortemente suas mãos ao ponto de suas unhas marcarem a carne macia da superficie da palma. O telefone toca. Abre os olhos de forma ríspida, deixando-os exageradamente arregalados e olha para cima como se tivesse rompido a lâmina de água e desperto de um afogamento. O telefone toca.- Não vou atender – O telefone toca. – Que merda! Quem é o filho da puta sem noção? – O telefone toca. ... ... ... ... ... ... finalmente silèncio. Volta vagorosamente para sala, os pés pesados arrastam-se, deita-se no sofá, olha em volta e lembra-se de que não achara o controle. Aproxima-se da tv e liga. Um pastor evangélico salta à tela.- Quem é aquele que salva! – grita à multidão de ovelhas hipnotizadas.- Jesus! Jesus! – responde o séquito.-Não há dor e nem sofrimento para aquele que acredita em nosso Senhor Jesus Cristo!- Glória! Que assim seja!- Grande coisa! – muda o canal. Agora a imagem de uma mão de unhas bem feitas aparece na tela do aparelho. – Mas que merda é essa?- Este lindo anel de topázio pode ser seu por apenas quinze vezes de 800 reais. Mas ligue agora, é a última peça!Aperta novamente o botão e ... outro canal evangélico. – Putz! Deixem espaço para os adoradores de satã. Como vai se lutar contra o inimigo se ele deixar de existir? Se o diabo morrer, quem precisará de Deus? – Desliga a televisão. O silêncio refrescante ecoa em sua mente. Não é engraçado como o silêncio possui som? Por vezes o silêncio possui um som tão alto que imaginamos que nenhum outro som vai conseguir suplanta-lo. Nosso cérebro é escravo do meio. Os sons entram sem permissão, assim como a dor. Não há como evita-la. Podemos controlar parcialmente seus efeitos, mas somente depois de ter chegado. Ela chega sem avisar e abre a porta e se instala. Nos nega até nossa vontade de viver. Talvez ela queira nos dizer que não somos eternos. Que estamos a todo momento sucubindo as intepéries da vida. Talvez seja a maneira de nosso corpo dizer adeus aos poucos, como se cada neurônio gritasse para os outros sua despedida. Nossa pele resseca, como se sugada pelo vácuo da vida, esvaindo de nosso interior, como uma bexiga que esvazia perdendo o ar que a sustentava.Mas na hora que o último resto de dor se for, na hora que último neuronio sair e apagar a luz... a dor se vai. Que droga, preciso atender o telefone.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A crônica dos monólogos bilíngües


Vem o grande literato, com seu carrão importado, pela larga e movimentada avenida. Súbito, fecha o sinal. Da calçada, o esfarrapado mendigo o enxerga.
- Carrão bunitu, todo excrementado, dotô indinherado cum certeza. Num vai mi dexá sem um trocadim, quem sabe inté uma bulacha que o fio largô.
Parado no cruzamento, o grande escritor, dramaturgo, ensaísta, jornalista e crítico literário percebe a figura andrajosa caminhando em sua direção:
- Esse é um cidadão de bom gosto. Sabe se vestir de acordo com o clima de nosso país. Ternos, gravatas, coletes... Que tortura, nesse calor! Esse indivíduo, ao contrário, domina a arte do bem trajar: sem camisa (claro, ele pode, está com o corpo de um maratonista, nem uma gordurinha sobrando). E olha as calças, têm várias aberturas para a circulação de ar! Idéia genial de algum grande estilista. E as sandálias? Uma de cada cor. Que estilo!
- Baum dia, seu dotô, disculpa di incomodá o sinhô...
-Não incomoda, concidadão, a bem da verdade, concedo-lhe congratulações pela indumentária!
O mendigo gaguejou:
- Pela minha cara?
- Seu trajar, ajustadíssimo a essa rotunda soalheira. Vejo que sua tez tem um tom trigueiro que deixaria minha consorte rubra de inveja.
O mendigo animou-se, pensando consigo: “Esse dotô é estranjero, num fala bem nossa linga”. “Mió ainda, os gringo é mais mom aberta”.
- O sinhô num sabe, num ganhei nada hoji, poca peça pa vendê, e baxô o pressu do aliminu...
O literato pensou rápido: “Vender”...O preço do alumínio... Nosso asceta aqui é do ramo de vendas. E voltando-se ao andarilho:
- Seu gerente devia instruí-lo a usar “corretagem” ou “consultoria” e evitar o termo “vender”. Um recurso semântico que exerce forte apelo coercitivo sobre o interlocutor. E sua dicção é truncada, embora me soe audível. Evite, mancebo, os tais vícios de linguagem inerentes a determinado tipo de atividade, que alguns profissionais acabam incorporando ao léxico de sua fala cotidiana. As empresas deveriam possuir tutores aptos a orientar melhor seus corretores. Quanta falta de visão!
O pobre diabo não ousou fazer qualquer comentário. O literato prosseguiu, sorridente:
- Então, varão, opera no ramo da metalurgia? Os negócios vão mal?
Por que não muda de ramo? Corretagem de imóveis, por exemplo?
- Ah, seu dotô, acorrentá os móvis pa eu num dá não. Percisa as ferramenta. Perfiro continuá na recicrage, ninguém da impregu pa homi que nem eu.
O literato sorri. O rapaz está se referindo a seu curriculum vitae. “Perfiro”! Que pronúncia peculiar para “perfil”... “Recicrage”, na certa são exemplos desses termos importados e mal pronunciados que os profissionais de marketing utilizam em profusão. Brasileiro tem preguiça de traduzir vocábulos e expressões estrangeiras e mais preguiça ainda de aprender a pronúncia correta. Acaba inventando um dialeto novo. Não é de se estranhar que este jovem não tem conseguido efetuar uma venda. Como convencer o comprador com tão pouco domínio sobre a língua? Regionalismos, má dicção, estrangeirismos...
O mendigo deslocou ligeiramente um piolho de sua morada, e arriscou:
- Intão, sinhô, será que da pa mi resovê um pobrema? To desdi manhã sem ponhá nada na boca... O dotô tem alguma coisa pa ajudá eu?
O literato pensou consigo: “Ponhar” provavelmente ele quis dizer “pomar”. Uma provável referência a suas origens interioranas. Sabia que era do interior! “Pobrema”! Bem, há indivíduos na TV que cometem esses atropelos... Mas “ajudar eu”, é um pavoroso desvio sintático. Um homem tão simpático, com um gosto refinado para se vestir, não será difícil resolver essas suas pequenas deficiências. Do porta-luvas retirou um grosso compêndio: ESTILO E TÉCNICA DO BEM FALAR. Obra genial de seu amigo Professor Cornélio Paganno. “É tudo que um bom profissional de vendas precisa para aperfeiçoar sua prosa”.
- Aqui está, meu amigo. Ponha o conteúdo disto em sua boca. Far-lhe-á muito bem.
Disse isso, aproveitou o sinal verde, avançou com sua máquina possante. Satisfeito com a boa ação.


Sentado na beira da calçada, o mendigo pensa que no país daquele homem as pessoas comem umas coisas muito estranhas. “Perfiria mais uma linguissa frita, uma coixinha... Mais mió qui nada!” Pensou isso, dobrou mais uma página, a de número 11, pôs de uma vez na boca, e mastigou lentamente.
- Com um cafezim dicia mió...
Moral da história:
Quando a palestrante no oratório da sarjeta é a fome, nem mil versos parnasianos superam a poesia concreta de um ovo colorido, no mais naturalista dos botequins.